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Colunista Retrocesso?

Coronavírus: lepra dos tempos modernos?

Retrato de uma sociedade infectada pelo vírus da indiferença

16/03/2021 às 23h49 Atualizada em 19/04/2021 às 17h15
Por: AltoPiquiriNews Fonte: Padre Antônio Murilo Macedo da Luz
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Coronavírus: lepra dos tempos modernos?

 

Olá, caro leitor

Não era este o tema que seria tratado em meu primeiro artigo de opinião, contudo, foi o que insistiu em aparecer por aqui. Então, Deus ajude e dê discernimento a mim e a ti.

Imagine, caro leitor, um período da história em que surgisse uma doença altamente infecciosa e, por consequência, uma grande dificuldade em encontrar medicamentos de cura ou prevenção, além de não se entender com precisão como acontece a transmissão. Imaginou? Imagine também, que a pessoa contagiada sofre enormemente com a doença propriamente citada aqui, mas intensificada com a solidão, já que precisa se manter distante de todos os seus, além do preconceito e medo das outras pessoas quando a vissem. Imagine que esta pessoa, fosse contada e expulsa de viver nas cidades, obrigada a usar máscaras, roupas rasgadas e, quando se aproximasse, deveria tocar sinetas, avisando aos outros para que se afastassem. Imagine quão grande dor estaria em seu íntimo, intensificada pelo abandono, da falta de compaixão e do desamor. E, que coisa terrível, sob o pretexto de cuidar daqueles que supostamente estão sãos. Sabia que isso já ocorreu, há mais de dois mil e quinhentos anos, quando o livro do Levítico (Lv 13) fora escrito?

Pois é, parece que vivemos em tempos de “renascimento da lepra” e por isso te convido a acompanhar meu espanto acerca dos últimos acontecidos.

No último dia 27 de fevereiro, chegou-me uma reportagem¹[1] sobre a decisão da Prefeitura de Nova Santa Rosa, município do interior paranaense. A pessoa que me enviou estava feliz com tal decisão, e tinha o desejo que isso se multiplicasse pelo país, em tempos de crescimento de infectados pela Covid-19 e superlotação dos leitos hospitalares. Após a leitura, percebi que nós, que nos julgamos evoluídos, superiores aos nossos pais, para não dizer nossos ancestrais, estamos colocando em prática exatamente a mesma coisa, se não pior, de tudo aquilo que já fora superado pela sociedade, a partir dos ensinamentos cristãos.

A prefeitura mencionada acima decidiu que pacientes suspeitos ou infectados pelo novo coronavírus em seu território estariam obrigados a fazer uso de pulseiras, identificando sua condição, numa tentativa de inibir a quebra do isolamento social. Isso mesmo, caro leitor, fora determinado que pacientes confirmados com Covid-19 devem usar uma pulseira com a escrita “ISOLAMENTO” na cor vermelha, ao passo que as pessoas que tenham contato com casos positivos da doença ou demais suspeitos, recebam a pulseira na cor verde.

Cheguei a comentar o quão terrível e semelhante às determinações no período veterotestamentário isso se parecia, e que já havia sido superado pelo Senhor em algumas ocasiões (Mt 8,2-4; Mc 1,40-45; Lc 5,12-15). Que fique claro, caro leitor, não quero aqui dizer que os infectados devam agir com imprudência e, sem consciência, não zelar pelo bem dos outros, não cumprindo o tempo de isolamento social. Não é disso que estamos tratando aqui. Mas da perturbação das decisões advindas dos impulsos.

Ademais, alguns dias se passaram e em 07 de março, assistindo ao jornal², uma decisão semelhante se apresentou. Agora, na cidade de Nova Granada, interior de São Paulo. E, uma vez mais minha indignação.

Já sabia que existia em nossa legislação³ algo que exigia o sigilo médico⁴. Mas não tinha observado ainda o quão importante isso era, até então. Hoje em dia, a lepra, doença temida por tantos séculos, parece ter desaparecido. Caro leitor, você conhece algum familiar, amigo ou vizinho seu que tem lepra? Esta doença foi tão estigmatizada, que precisou trocar de nome, para que as pessoas que a contraíssem não sofressem com todo o peso que com ela traria, que já retratamos anteriormente. Hoje a chamamos de hanseníase, tem tratamento e cura. Imagine, porém, se você descobrisse ter lepra e obrigatoriamente precisasse contar aos quatro cantos que está infectado. Quem sabe de alguém que contraiu a AIDS? Quem sabe, um câncer, e você não pode ter a escolha de contar com o sigilo, pois parece não ser suficiente sofrer com a doença, precisa pesar o peso dos olhares tortos, dos cochichos maldosos ou preconceituosos, da sua privacidade estuprada por uma decisão autoritária nada compassiva?

Pois bem, caro leitor. Tenhamos a prudência de nos cuidarmos, tomando todas as medidas sanitárias que nos ajudam a combater a Covid-19. Sejamos obedientes em tudo aquilo que ajude a cuidar de nossas vidas, da vida daqueles que amamos e do bem comum. Mas, jamais aceitemos que algo retire a dignidade e o direito das pessoas. 

Padre Antônio Murilo Macedo da Luz

 

¹ Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ultima-hora/pais/infectados-ou-suspeitos-de-covid-19-sao-obrigados-a-usar-pulseiras-de-identificacao-no-parana-1.3053326

² Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2021/03/08/cidade-paulista-obriga-moradores-com-covid-a-usarem-pulseiras-de-identificacao

³ https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10730704/inciso-x-do-artigo-5-da-constituicao-federal-de-1988

⁴ https://danielfranca.jusbrasil.com.br/artigos/111756943/o-segredo-profissional-o-sigilo-e-a-copia-do-prontuario-medico



 

 

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